Pouso devagar as chaves sobre a mesa, entro a espumar da boca mas limpo-a rapidamente e recomponho-me para uma entrada casual, estando a ferver por dentro e até mesmo por fora, limpo-me apressadamente e cheiro o meu casaco e t-shirt na ânsia acesa da ausência de um cheiro não familiar, descubro que não sei se sei distinguir a memória do cheiro físico na realidade, eu sinto-o, sinto-o em todo o lado, no chão, nas paredes, no vento, no mar, na roupa, por dentro, por detrás de tudo consigo snifar aquele aroma a macho, mas um macho que me cativa, que me enlouquece, que me mexe nos confins do meu corpo nauseabundo a desejo.
Aquele frio estupendo na barriga foi substituído por um ardor incontornável, queimava por dentro, ardia lentamente todas as células outrora mortas do meu corpo, não dói, mas vem à boca um sabor irredutível a felicidade, uma saliva pura com uma adrenalina excitante e inacreditável, julguei ter uma montanha russa na cabeça, algures, naquele sitio onde se pensa com o coração. E, com algum receio de me ter entregado mais do que aquilo que devia, saboreio a maça suculenta na minha boca, arrepiando-me pelo barulho que provoca nos meus dentes, sentindo ainda um vento frio na espinha, como se ainda fosse um depósito de toda aquela excitação. A raça humana é pequena demais, vejam só, como momentos excitação podem fazer mudar por instantes a ideia que se tem do grau de satisfação em que nos encontramos, reparem como os mesmos olhos que vêm toda a desgraça, sentem todo o prazer esquecendo tudo o que ficou para trás…e fossem os meus lembrarem-se de alguma coisa, ontem….
Amanhã, o ontem partirá para bem longe de mim, lá para os confins do mundo, para aquela linha imaginária onde ficam todos os sonhos e dias realizáveis, e eu que pensara que esse dia não viria nunca mais, enganei-me redondamente, sabendo que no fundo queimava em algum órgão um desejo impune de cometer o perdido erro de me querer enganar a mim própria que alguma coisa que verdadeiramente desejei sem desejar aconteceria.
Atiro-me para a cama, a minha cama afinal, aquela que sempre invejei e repudiei ao mesmo tempo, tão sóbria, tão só, incompleta, mas aconchegante, sempre dá para aquecer o corpo e faze-lo descansar para outro dia inglorioso, no fim de contas, eles estão de volta, em força, para me atirarem para dentro de um buraco profundo, cheio de vácuo e coisa nenhuma, do mesmo material de que é feito um coração que conheci.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
domingo, 31 de agosto de 2008
Sou vítima de uma gravidez ambulante, de um cancro no colo do útero que se propaga pelo sangue chegando aos vasos capilares mais requintados e por sua vez mais discretos como se esses fossem o FBI num caso de extrema segurança e privação, em que não pudessem ser vistos e nem deus pudesse salvaguarda-los por nem sequer constarem na lista de mortais; o cancro vai morrer quando eu morrer, é uma vitória do corpo, um descanso da vida, e uma libertação da alma aprisionada ao corpo que não escolheu. Não parto sozinha em vão, mas acabo por matar toda a saudade que aquelas dores e coisas na barriga me deixaram. Parto, prenha por essa rua fora, grávida de ti, do mundo, de todas as palavras que engoli sem querer, como se me entalasse com um gole de água oferecido por uma pessoa que me despreza, vislumbro olhares que me olham fazendo o percurso com a íris dos meus pés à cabeça, parando nos meus olhos, observando de perto a minha expressão mais adulta e vislumbrando a barriga que não quer crescer.
Acabei por ter o meu filho há alguns dias atrás, vi-o nascer e florescer, cheguei a tocar-lhe no umbigo e decorei algures na minha memória, aqueles calções verdes, aquela barreira da distância e do amor que fazem para sempre paralelas no meu caminho. Aprendi, também que mentir é o melhor caminho para aqueles que não nos deixam respirar, a liberdade começa a ganhar a sua própria independência à medida que o segredo envelhece e se torna maduro, ganha forma e sai à rua ao lado do meu porta-moedas dentro da mala robusta comprada naquela festa na qual vivemos momentos felizes.
Para sempre serei um mártir daquilo que fui, está escrito em algum lado que jamais chegarei ao cimo sem que a escada anterior não me pareça insana, e não é que nunca me tenha envergonhado dos meus apetites, é só que à medida que a maçã vai sendo digerida na boca virgem, o segundo pedaço a trincar pesará sempre menos na consciência é tal e qual como a guerra mundial que começa numa briga de irmãos, uma briga de infância, uma disputa por um brinquedo, vai evoluindo com as idades, passa por uma briga de adolescentes, atinge a maioridade, dois adultos que disputam questões monetárias, passam pelos números ordinais e acrescentam gentes às pequenas batalhas, os números vão subindo a uma velocidade louca ate que envolve uma grande guerra com todas as gentes do mundo e mais algumas, por assuntos das quais as origens já não são bem recordadas e acabam por encher todos os jardins nutridos a carne podre e em decomposição com ossos à mistura de almas despedaçadas e corpos sem vida. E, depois, há sempre alguém muito gentil, que acha que não tem culpa no cartório e esculpe na pedra um doloroso e sentido “R.I.P” como se a última palavra fizesse qualquer buraco branco nas mentes guerrilheiras, o pior, é que a paz não é um morto que não sente, é um vivo que descansa.
E o amor só poderia explodir em mim desta forma, visto que eu nunca fui muito com ele no seu estado natural, faz-me um certo tipo de alergia, porque quase sempre me provoca dor de terceiro grau aguda, mas naqueles dias, misturou um sabor intenso a morango e maracujá na boca da maça vermelha que fez com que nutrisse um líquido alaranjado chamado felicidade, com um ponto alto de ebulição que fazia o sangue ferver e as veias corromperem, e o coração esse impiedoso ilusório batia como se não houvesse amanha, numa folia e adrenalina invejáveis…oh meu deus (seja lá quem fores) eu fui feliz!
Acabei por ter o meu filho há alguns dias atrás, vi-o nascer e florescer, cheguei a tocar-lhe no umbigo e decorei algures na minha memória, aqueles calções verdes, aquela barreira da distância e do amor que fazem para sempre paralelas no meu caminho. Aprendi, também que mentir é o melhor caminho para aqueles que não nos deixam respirar, a liberdade começa a ganhar a sua própria independência à medida que o segredo envelhece e se torna maduro, ganha forma e sai à rua ao lado do meu porta-moedas dentro da mala robusta comprada naquela festa na qual vivemos momentos felizes.
Para sempre serei um mártir daquilo que fui, está escrito em algum lado que jamais chegarei ao cimo sem que a escada anterior não me pareça insana, e não é que nunca me tenha envergonhado dos meus apetites, é só que à medida que a maçã vai sendo digerida na boca virgem, o segundo pedaço a trincar pesará sempre menos na consciência é tal e qual como a guerra mundial que começa numa briga de irmãos, uma briga de infância, uma disputa por um brinquedo, vai evoluindo com as idades, passa por uma briga de adolescentes, atinge a maioridade, dois adultos que disputam questões monetárias, passam pelos números ordinais e acrescentam gentes às pequenas batalhas, os números vão subindo a uma velocidade louca ate que envolve uma grande guerra com todas as gentes do mundo e mais algumas, por assuntos das quais as origens já não são bem recordadas e acabam por encher todos os jardins nutridos a carne podre e em decomposição com ossos à mistura de almas despedaçadas e corpos sem vida. E, depois, há sempre alguém muito gentil, que acha que não tem culpa no cartório e esculpe na pedra um doloroso e sentido “R.I.P” como se a última palavra fizesse qualquer buraco branco nas mentes guerrilheiras, o pior, é que a paz não é um morto que não sente, é um vivo que descansa.
E o amor só poderia explodir em mim desta forma, visto que eu nunca fui muito com ele no seu estado natural, faz-me um certo tipo de alergia, porque quase sempre me provoca dor de terceiro grau aguda, mas naqueles dias, misturou um sabor intenso a morango e maracujá na boca da maça vermelha que fez com que nutrisse um líquido alaranjado chamado felicidade, com um ponto alto de ebulição que fazia o sangue ferver e as veias corromperem, e o coração esse impiedoso ilusório batia como se não houvesse amanha, numa folia e adrenalina invejáveis…oh meu deus (seja lá quem fores) eu fui feliz!
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Amanha
Morri há alguns anos atrás e perdi peças do presente, as do futuro nunca chegaram a vir, e as do passado estão tão bem encaixadas que jamais serão tocadas, como se as coisas ficassem para sempre tal como acabaram, e agora que me encontrei durante este tempo todo, morri, para todos os dias acordar e reflectir que hoje é só um dia a mais do que ontem, e que tudo estará de volta ao seu ciclo vicioso do abismo inegável.
Renasci porque amanhã será um dia diferente, porque os deuses devotos deste mundo perceberam que havia qualquer coisa pendente na minha pessoa, e não era na minha vida porque essa certamente já se perdeu por esses recantos, o dia depois de hoje trará de volta um novo ar e conhecerei, ao mesmo tempo que sinto dois braços enrolados a mim, um novo eu, sem esquecer tudo o que fui, parto para uma viagem espiritual, não saindo do sítio, apenas ganhando a medalha de uma vida de luto parada no meu altar e vai ser o mesmo em que nos vamos casar em nome de um deus qualquer que estará entre nós dois, atrás e à frente e dos lados, nunca se sabe…Casamo-nos quando quisermos, mas hoje, hoje já não dá…
Renasci porque amanhã será um dia diferente, porque os deuses devotos deste mundo perceberam que havia qualquer coisa pendente na minha pessoa, e não era na minha vida porque essa certamente já se perdeu por esses recantos, o dia depois de hoje trará de volta um novo ar e conhecerei, ao mesmo tempo que sinto dois braços enrolados a mim, um novo eu, sem esquecer tudo o que fui, parto para uma viagem espiritual, não saindo do sítio, apenas ganhando a medalha de uma vida de luto parada no meu altar e vai ser o mesmo em que nos vamos casar em nome de um deus qualquer que estará entre nós dois, atrás e à frente e dos lados, nunca se sabe…Casamo-nos quando quisermos, mas hoje, hoje já não dá…
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
"The Killer is me"
Vislumbrei por entre a vitrina da loja a embalagem de comprimidos milagrosos, era redonda e pequena, mas cheia, muito cheia por dentro, a abarrotar de efeitos secundários e de desígnios menos dignos e colorida, como se também os olhos pudessem tomar a dose necessária e viajarem para outra dimensão e talvez permanecer por lá em férias prolongadas até à eternidade, estava só, meia escondida por detrás de todas as outras caixas de medicamentos para a vida, que perda de tempo!, atrasar a morte é algo deveras grotesco , e muito típico do ser humano que cisma em atrasar tudo o que o tempo não pode vir a realizar mais tarde.
Olhei mais de perto para poder enviar ao meu cérebro o número exacto da quantia que tinha de cobrar para ser feliz, disfarcei como se tivesse também a olhar para outro preço, não vá a sociedade recriminar-me agora por ter uma pequena e inútil curiosidade, e de repente senti um” não” a percorrer-me cada vaso capilar, não o posso comprar, demasiado caro, e nem sei se algum dia conseguirei dar-lhes uso. Agora, preferia não ter visto nada, ter-me deitado a dormir e imaginar que estava onde eu queria estar, teria sido tudo tão mais fácil, teria sido tudo tão menos doloroso, mas há sempre retalhos que me obrigam a caminhar descalça pelo caminho mais longo, e desgastam-me os músculos e a mente, preciso de descanso, um terno descanso.
Se alguém disse que as férias são milagrosas, enganou-se redondamente; as férias não são mais que um fardo, um prolongamento do tempo que temos a sós, uma solidão tremenda entre a alma e o corpo que nos obriga a pensar em perguntas sem resposta e a deixar trespassar a tristeza compulsiva, há que ter sempre algo de baixo da manga e realizar sem qualquer pudor, tentando desligar os pensamentos insanos sobre a vida e as coisas, eu tentei, juro que sim, mas quanto mais tento, mais falho por simplesmente saber que o único objectivo destas tristes tentativas é mais uma tentativa de me deixar menos mal em relação a tudo. E se ao menos tudo fosse igual a ti, limpo e forte, insano mas verdadeiro em todos os ínfimos pensamentos, o mundo seria o paraíso e deixaria saudades. As coisas não tardam nada a voltar ao berço, a verdadeira avalanche ainda está para vir.
Olhei mais de perto para poder enviar ao meu cérebro o número exacto da quantia que tinha de cobrar para ser feliz, disfarcei como se tivesse também a olhar para outro preço, não vá a sociedade recriminar-me agora por ter uma pequena e inútil curiosidade, e de repente senti um” não” a percorrer-me cada vaso capilar, não o posso comprar, demasiado caro, e nem sei se algum dia conseguirei dar-lhes uso. Agora, preferia não ter visto nada, ter-me deitado a dormir e imaginar que estava onde eu queria estar, teria sido tudo tão mais fácil, teria sido tudo tão menos doloroso, mas há sempre retalhos que me obrigam a caminhar descalça pelo caminho mais longo, e desgastam-me os músculos e a mente, preciso de descanso, um terno descanso.
Se alguém disse que as férias são milagrosas, enganou-se redondamente; as férias não são mais que um fardo, um prolongamento do tempo que temos a sós, uma solidão tremenda entre a alma e o corpo que nos obriga a pensar em perguntas sem resposta e a deixar trespassar a tristeza compulsiva, há que ter sempre algo de baixo da manga e realizar sem qualquer pudor, tentando desligar os pensamentos insanos sobre a vida e as coisas, eu tentei, juro que sim, mas quanto mais tento, mais falho por simplesmente saber que o único objectivo destas tristes tentativas é mais uma tentativa de me deixar menos mal em relação a tudo. E se ao menos tudo fosse igual a ti, limpo e forte, insano mas verdadeiro em todos os ínfimos pensamentos, o mundo seria o paraíso e deixaria saudades. As coisas não tardam nada a voltar ao berço, a verdadeira avalanche ainda está para vir.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
S.D.
Algumas camadas interiores começam a florescer, rasgando-se da pele queimada dos dias quentes, elas vieram ao de cima como o barco que se afundou e jamais será recuperado, adormecido no fundo do útero marino, guardando memórias mergulhadas no sal, temperadas ao sabor do vento, remexidas pelos peixes que fazem a distorção relativa à medida que os ponteiros do relógio percorrem lentamente o percurso infinito. Estou a envelhecer, é verdade! Sobressaem ainda alguns poros rotos, outros escondem nos cantos inimagináveis pedaços de lágrimas que não secaram. Tudo volta, porque tudo merece ter uma segunda hipótese, e eu decidi dá-la ao amor, se bem que não fui completamente imparcial, deixei-me levar na corrente até que o vento me trouxe ares novos e tão antigos que eu já conhecia.
Senti levemente no fundo da alma o sopro que guarda consigo o cheiro do maior dos maiores dos sentimentos, senti aquele calor apoderar-se do frio que presenciou desde então, e ouvi as minhas cordas vocais a tentarem pronunciar um breve orgasmo e ao mesmo tempo a memória e a dignidade a travarem-no, calando-o e fazendo-o perder-se no silêncio da noite.
Ontem o vento trouxe-me de volta aquele som que deixei por soltar, o meu corpo rendeu-se ao sentimento hegemónico que estourava como bombas nucleares no meu peito e acordava as hormonas habituadas ao descanso para a dança, a dança da vida. Acho que estou doente, mais doente que da última vez, só não sei como lidar com isto, se na primeira vez falhei redondamente tudo o que nunca deveria ter feito, deixo-me sentada numa cadeira, à espera que a batalha termine, e que um dia possa já ter vencido a guerra, de uma dor incontornável que foste.
Dentro de mim volta a crescer aquela florzinha chamada esperança, que faz cócegas na garganta e frio na barriga, as células viajam agora na primavera do meu ser, de sorriso na boca, e de olhar completo e vivido, como um gosto doce na boca, caminham pela estrada, como se no fundo lhes esperasse um belo homem com uma t-shirt de um desenho animado da rua Sésamo.
Senti levemente no fundo da alma o sopro que guarda consigo o cheiro do maior dos maiores dos sentimentos, senti aquele calor apoderar-se do frio que presenciou desde então, e ouvi as minhas cordas vocais a tentarem pronunciar um breve orgasmo e ao mesmo tempo a memória e a dignidade a travarem-no, calando-o e fazendo-o perder-se no silêncio da noite.
Ontem o vento trouxe-me de volta aquele som que deixei por soltar, o meu corpo rendeu-se ao sentimento hegemónico que estourava como bombas nucleares no meu peito e acordava as hormonas habituadas ao descanso para a dança, a dança da vida. Acho que estou doente, mais doente que da última vez, só não sei como lidar com isto, se na primeira vez falhei redondamente tudo o que nunca deveria ter feito, deixo-me sentada numa cadeira, à espera que a batalha termine, e que um dia possa já ter vencido a guerra, de uma dor incontornável que foste.
Dentro de mim volta a crescer aquela florzinha chamada esperança, que faz cócegas na garganta e frio na barriga, as células viajam agora na primavera do meu ser, de sorriso na boca, e de olhar completo e vivido, como um gosto doce na boca, caminham pela estrada, como se no fundo lhes esperasse um belo homem com uma t-shirt de um desenho animado da rua Sésamo.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Espera impotente
Por entre os espinhos das rosas murchas floresce o micróbio da dor, uma doença que se alastra por tudo o que é belo e virgem, por entre os pinhais de natureza inocente, por entre os campos com sementes prontas a florir, esperando pela primavera para que tudo posso fazer da sua voz palavras que dançam ao som do vento até chegarem ao céu e perderem-se na imensidão do universo, esperando um dia serem recordadas por alguém, como se algo ficasse eterno no coração dos que morrem, como se algo jamais pudesse ser feito alimento dos insectos que rasgam a carne flácida do que outrora foi vivo e colorido, e até mesmo nos dias mais cinzentos, e na dor mais aguda, resistiam à vida, porque à morte não se resiste.
É tudo uma espera impotente, uma espécie de sala acalorada pela impaciência humana, onde os seres vivos combatem contra o tempo, que sempre que é preciso está a descansar no leito do mundo. E é impotente porque a paz não a abraça na hora da despedida, é uma guerra incessante, são batalhas que perduram todas as vidas de quantas mortes já sucederam, não há vencedores nem vencidos, é uma guerra incapaz e débil assim como toda a carne no mundo.
Um dia, vou sentir falta do que não vivi, e nesse dia, tudo irá ser tarde demais. É por isso que aqui estou, para sentir na minha pele que se queima com o calor do sol, a dor do que já não pode voltar mais, de erros irremediáveis, de problemas irredutíveis de respirares incansáveis e tentativas falhadas de manter o barco em equilíbrio neste oceano sóbrio.
Vejo dor naquela rosa que me deste, vejo dor em todo o lado para dizer a verdade, salpicos de água choca, e vejo mosquitos a picaram as pétalas que ofuscam os olhares, vejo uma cama e um quarto fechado, paredes a gritarem no silencio, a roupa a chorar lágrimas de pânico pelo corpo que ousaram abraçar, um espelho que se parte a cada reflexo, uma janela inatingível, uma escada rota, terra molhada, pedras de cimento, letras hipócritas, memorias enterradas, insectos saciados, um portão, um sino de uma igreja, um olhar seco e … um ramo de alecrim pousado sobre a pedra…
É tudo uma espera impotente, uma espécie de sala acalorada pela impaciência humana, onde os seres vivos combatem contra o tempo, que sempre que é preciso está a descansar no leito do mundo. E é impotente porque a paz não a abraça na hora da despedida, é uma guerra incessante, são batalhas que perduram todas as vidas de quantas mortes já sucederam, não há vencedores nem vencidos, é uma guerra incapaz e débil assim como toda a carne no mundo.
Um dia, vou sentir falta do que não vivi, e nesse dia, tudo irá ser tarde demais. É por isso que aqui estou, para sentir na minha pele que se queima com o calor do sol, a dor do que já não pode voltar mais, de erros irremediáveis, de problemas irredutíveis de respirares incansáveis e tentativas falhadas de manter o barco em equilíbrio neste oceano sóbrio.
Vejo dor naquela rosa que me deste, vejo dor em todo o lado para dizer a verdade, salpicos de água choca, e vejo mosquitos a picaram as pétalas que ofuscam os olhares, vejo uma cama e um quarto fechado, paredes a gritarem no silencio, a roupa a chorar lágrimas de pânico pelo corpo que ousaram abraçar, um espelho que se parte a cada reflexo, uma janela inatingível, uma escada rota, terra molhada, pedras de cimento, letras hipócritas, memorias enterradas, insectos saciados, um portão, um sino de uma igreja, um olhar seco e … um ramo de alecrim pousado sobre a pedra…
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Queimei-me de tantas vezes vislumbrar o céu, aquele paraíso terreno que jamais será esquecido, para mim, é a única coisa que nunca nos abandona, estará sempre por cima de nós a segredar-nos o vasto território de que um dia, por mero acaso, ousaremos ocupar sem fronteiras nem limites, ousaremos desvirginar tais terras, ocupando-as com todas as minhas colecções de postais de entes queridos, memórias rasgadas ao relento, guardadas como múmias no cofre que há em mim, respirarei o ar inculto e dormirei num descanso inocente para um tempo indeterminado.
Sonhei um dia, engolir tudo isto apenas com um clique, um desligar da máquina defeituosa que me mantém viva, mas acordei no momento em que desfrutava de um reconhecimento árduo do que fui submetida a sobreviver, o sol dilatou-me as pupilas novamente, como se a maior alegria jazesse no coração daquele astro em chamas, que se ria da figura dos homens que diziam um dia o hidrogénio acabar, acabando por ser eles os únicos com data de entrada e saída marcadas, e olha que até é uma estadia efémera…
Pedi ao mundo e aos céus que me trouxessem um dia novo, um dia que estava eu já farta de o reinventar como se sempre que o imaginava, algo me dizia que era novo, novo em folha, a estrear, mas nessa altura, já eu tinha estreado o dia tantas vezes quantas horas o mundo tem, de qualquer forma, a minha inocente mente sabia que o dia nunca viria, por isso é que era jovem, porque nunca nasceu, porque nunca veio num dia de primavera junto com as andorinhas, nunca chegaram a rebentar flores, muito menos frutos, e o sonho dói levantando voo como um balão que uma criança se descuidou e largou-o, escorregou-se por entre os poros da minha pele, e as lágrimas sempre a vê-lo de longe e fugir, e molhavam-se ainda mais, ainda hoje consigo pegar na memória do sonho amarelo que vi fugir, vejo-o sorrir maleficamente batendo numa nuvem, sorrindo…e sorrindo. A sorrir ficou a minha alma, depois que os poros aumentaram de tamanho, houve espaço para a raiva entrar, e a fúria misturou-se e as memórias foram guardadas numa gaveta de fechadura fortíssima, com um título bem legível “perigo de morte”, e eu não mexo nelas, tenho medo…
E foi ao diminuir a minha capacidade de armazenamento mental, que tentei que esse quarto fechado não constasse tão cedo na minha lista de divisões, para que pudesse viver com dignidade o primeiro dia do resto da minha vida.
Sonhei um dia, engolir tudo isto apenas com um clique, um desligar da máquina defeituosa que me mantém viva, mas acordei no momento em que desfrutava de um reconhecimento árduo do que fui submetida a sobreviver, o sol dilatou-me as pupilas novamente, como se a maior alegria jazesse no coração daquele astro em chamas, que se ria da figura dos homens que diziam um dia o hidrogénio acabar, acabando por ser eles os únicos com data de entrada e saída marcadas, e olha que até é uma estadia efémera…
Pedi ao mundo e aos céus que me trouxessem um dia novo, um dia que estava eu já farta de o reinventar como se sempre que o imaginava, algo me dizia que era novo, novo em folha, a estrear, mas nessa altura, já eu tinha estreado o dia tantas vezes quantas horas o mundo tem, de qualquer forma, a minha inocente mente sabia que o dia nunca viria, por isso é que era jovem, porque nunca nasceu, porque nunca veio num dia de primavera junto com as andorinhas, nunca chegaram a rebentar flores, muito menos frutos, e o sonho dói levantando voo como um balão que uma criança se descuidou e largou-o, escorregou-se por entre os poros da minha pele, e as lágrimas sempre a vê-lo de longe e fugir, e molhavam-se ainda mais, ainda hoje consigo pegar na memória do sonho amarelo que vi fugir, vejo-o sorrir maleficamente batendo numa nuvem, sorrindo…e sorrindo. A sorrir ficou a minha alma, depois que os poros aumentaram de tamanho, houve espaço para a raiva entrar, e a fúria misturou-se e as memórias foram guardadas numa gaveta de fechadura fortíssima, com um título bem legível “perigo de morte”, e eu não mexo nelas, tenho medo…
E foi ao diminuir a minha capacidade de armazenamento mental, que tentei que esse quarto fechado não constasse tão cedo na minha lista de divisões, para que pudesse viver com dignidade o primeiro dia do resto da minha vida.
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